terça-feira, 9 de dezembro de 2025

ENTREVISTA COM JULIO FONSECA- Lançando o livro "OVNIPORTO CIPÓ"

 

Natural de Carmésia e atualmente morador da Serra do Cipó, o escritor Júlio Fonseca lança Ovniporto – Cipó, uma obra divertida, inteligente e cheia de imagens inesquecíveis. Misturando memórias, humor, ficção científica e uma boa dose de exagero mineiro, Júlio conta histórias deliciosas, causos, histórias e estórias. Com olhar afiado, sensibilidade e uma ironia elegante, o autor cria uma narrativa que é um retrato afetuoso da vida no interior. A seguir, uma conversa com o autor ...

Marcos Martino:

Júlio, você é do interior, de Carmésia, vive na Serra do Cipó há anos, passou pela Cidade Nova, foi professor de inglês, viajou muito… Como todas essas “encarnações” e “adbuções” se encontram neste livro?

Julio Fonseca - Abdução ou ilação, seria inventar ou criar em cima de um fato ou texto preexistente, mudando-o ou complementando-o sempre citando o autor. Como diz o compositor Marcos Martino : " detesto monotonia ...".

Capa do livro
Marcos Martino:

Seu livro é dividido em duas partes diferentes: a primeira, feita de contos que passam pela infância, pelos animais, pela Serra do Cipó, por pequenos absurdos e muito humor e referências literárias e do cinema; e a segunda, uma verdadeira “viagem medieval-fantástica” por Espanha e Portugal, com personagens da sua própria família transformados em nobres, guerreiros e heroínas. Como surgiu essa ideia de estrutura dupla? Em que momento percebeu que podia juntar esses dois mundos?

Julio Fonseca - Na primeira parte, os contos são lembranças da minha infância e também fatos ocorridos posteriormente. Quanto a segunda parte, devo dizer que sempre gostei de História e poderia ter sido professor desta matéria. Quando viajei para Portugal e Espanha, fiquei maravilhado, até aconteceu de sentar em um banco na praça e chorar de emoção. E aí, motivado pelos filmes clássicos, fui criando tudo sem planejar e sempre valorizando membros da grande família.

Marcos Martino:

Logo no início temos o conto Disco Voador, onde a Serra do Cipó vira palco de naves espaciais, ETs, Raul Seixas fiscalizando foguetes e até referências à inteligência artificial. De onde vem esse humor tão livre e essa coragem de misturar realidade e delírio com muita liberdade? OVNIPORTO CIPÓ vem dessa parte né? Nos conte o por que do nome.

Julio Fonseca - Aqui na Serra do Cipó, inúmeras pessoas acreditam em disco voador ou outros objetos voadores não identificados. Daí a construção do Ovniporto. Já estava precisando ! A vontade de inventar e misturar coisas é incontrolável para mim. Quanto ao " burocrata" e cantor Raul Seixas e seus carimbos, ele é tão maluco quanto eu.

Marcos Martino:
Os contos da primeira parte — Dom Gaspar, A Gata Triste, O Sapo, Quasímodo, A Tartaruga Porteira — parecem revisitados com um olhar adulto cheio de poesia, mas sem abandonar a criança interior. Qual é a importância da infância na sua escrita? Esses contos nasceram de memórias reais?

Julio Fonseca -Os contos da primeira parte são baseados em memórias afetivas da minha maravilhosa infância vivida em pequena cidade do interior. A grande maioria dos contos são baseados em fatos realmente ocorridos.

Marcos Martino:

A Serra do Cipó aparece sempre como pano de fundo, quase um personagem: a neblina, os animais, o quintal, as pessoas simples. O que representa a Serra do Cipó na sua vida e na sua literatura?

Julio Fonseca - Para mim e minha família, a Serra do Cipó é um oásis abençoado parecido com a cidade de Carmesia. Foi aqui que me inspirei para escrever contos fantásticos e reais. Por exemplo : aqui criei, de verdade, um frango portador de necessidades especiais. Pus nele o mesmo nome do personagem de Victor Hugo : Quasimodo - o Corcunda de Notre Dame.

Marcos Martino:
Você cita Chico Buarque, Raul Seixas, música, cinema, literatura clássica, história de Portugal, tudo convivendo com personagens locais como Juquinha e a cadela Laika…Essa mistura é espontânea? Ou você tem uma intenção pedagógica, de aproximar mundos?

Julio Fonseca -Sempre viajei nas músicas de Chico Buarque.Agora viajei mesmo em sua nave Zepelim, acompanhado da apedrejada Geni. Sempre procuro aproximar o mundo real do mundo dos sonhos.Este quase sempre alcançável, acho.

Marcos Martino:
A segunda parte, com Torre D’ouro e Torre Giralda, recria a Península Ibérica como um grande teatro onde seus familiares viram reis, princesas, navegadores, guerreiros e até personagens cruzados com figuras da cultura pop — Popeye, Cinderela, Sancho Pança.O que te motivou a transformar sua família em personagens épicos? É uma forma de homenagem, brincadeira ou as duas coisas?

Julio Fonseca -Como já disse, não macomunei nada dentro das duas torres. Procurei só brincar e homenagear meus parentes. Quando dei fé, a louca odisseia já estava solta no espaço.

Marcos Martino:

As heroínas do livro — especialmente Dona Giralda das Letras, Dona Maria José dos Foles e Dona Mara das Notas Musicais — são figuras fortes, inspiradoras e cheias de beleza.Quem são essas mulheres na sua vida? E por que elas ocupam um lugar tão central na sua imaginação?

Julio Fonseca - Dona Maria José dos Foles ,minha esposa ( presa na Torre d'Ouro em Sevilha ) é acordeonista. Esta acompanha sempre todas as minhas trilhas. Dá sempre todo seu apoio. Dona Giralda das Letras : título ligado a linda Torre Giralda da cidade de Sevilha, trata-se de minha queridissima irmã e escritora Geralda Júlia. Dona Mara das Notas Musicais foi um ser humano de raras qualidades, principalmente musical. Fundou a Escola de música Cariunas dando grande apoio cultural a comunidade do bairro Floramar em BH.

Marcos Martino:
Seu humor nunca é agressivo; é acolhedor, espirituoso, afetuoso, cheio de imaginação.Você sempre escreveu assim?Ou essa forma de narrar veio com o tempo, com a maturidade?

Julio Fonseca -Esta forma de narrar é inerente a mim. Sempre fui assim : bem humorado e otimista. Acho que DNA existe mesmo e devo ter puxado meu pai e minha mãe ?!!

Marcos Martino:
Como foi o processo criativo do Ovniporto Cipó?
Você escreveu tudo de uma vez? Reuniu contos antigos? Houve alguma curadoria específica? Quem trabalhou a capa, as artes?

Julio Fonseca -O curador, músico e escritor Luis Carlos Gomes (Luis Curinga), fez a montagem final, correção de texto com auxílio de IA , idealização da capa com apoio de meu filho Guilherme Fernandes Fonseca.

Marcos Martino:
Seu filho Guilherme revisou o texto; outros parentes viraram personagens; a família é quase uma coautora. Como foi essa negociação dentro de casa? Eles se surpreenderam com as versões “medievalizadas” deles mesmos?

Julio Fonseca - A família apoiou espontaneamente o meu trabalho, principalmente meus irmãos escritores José Júlio e Geralda Júlia. Ficaram todos surpresos e felizes por participarem de toda está estrepolia.

Marcos Martino:
Para quem você escreveu esse livro?
Existe um público específico ou é um livro que dialoga com leitores de todas as idades?

Julio Fonseca -Este livro dialoga com leitores de todas as idades. Bem dito !

Marcos Martino:
Vivemos tempos duros, acelerados. O seu livro convida a desacelerar, brincar, imaginar, resgatar memórias.Qual papel você enxerga para a imaginação na vida adulta — e principalmente na vida comunitária?

Julio Fonseca - Volte para o mundo infantil e brinque de viver, de verdade, junto a sua comunidade.

Marcos Martino:

Quem quiser comprar Ovniporto Cipó — como faz?
E quais são os próximos eventos e lançamentos programados?

Julio Fonseca - O lançamento será dia 13, sábado, na feira dos produtores da Cidade Nova. É um local muito legal, numa região em que residimos e temos muitos amigos. A Maria José vai estar junto tocando sanfona. Vai ser uma delícia receber os amigos. Em breve divulgaremos as alternativas para quem quiser adquirir o livro via internet 

Marcos Martino:
Para quem vai conhecer sua obra agora, que mensagem você gostaria de deixar? O que espera que o leitor sinta ao chegar ao fim do livro?

Julio Fonseca - Imagine o OVNIPORTO CIPÓ, viagem pela Via Láctea, estrada tão bonita quanto nossa trilha dos sonhos aqui em nosso quintal temático.

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